sexta-feira, 13 de novembro de 2009

o mundo não mais assusta
não há medo da torre de marfim
nem acredita-se em castelos de jasmim
se o que a hipocrisia veio castrar
grava-se no peito carmim...

nas ruas tortas
uma casa nua respira
mais que higiênica e sexual
e desfaz-se das ratoeiras
queima um milhão

não ha alma nem só corpo
ter fome e pão sem terço na mão
e o homem que já não chora de inanição
por periferias correndo cinzas pelo chão
acorda com uma terra em construção.

sábado, 7 de novembro de 2009

refletir o capim
de manhã em verde macio
sem temer a foice do homem
refletir um cheiro de pasto ou de flor
nas terras que não foram dos avôs
envergado pelo vento
que com seu sopro
tem toda a cor

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

absolutamente
ela coleciona absurdos
vive de surtos
demasiadamente
viciada em pó
em tudo
que degenera
e ressurge.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Des-envolvimento


fotografando em máquinas
digitais nossas histórias
esvai-se o cotidiano
descartáveis compartimentados
títulos nexos comprimidos camisinhas
acreditando que não há tempo
paras piegas doçuras de amor
oras, sejamos práticos
pra que o amor fati?
se um auto-móvel me dirigi
por correios eletrônicos
e a carta que compartilharia em partes
já se tornou antiga
Honduras em estado de sítio
era informação que já passou
enquanto uma menina
choraminga um hematoma
ouvindo jazz bem baixinho
lê sabe-se lá o que da ciência
não há com quem compartilhar
a bolsa de gelo nem a indignação

O mundo é mundo mesmo que desconheça a poesia!



Des-envolvimento 2

a música do alvorecer
debruçou-me sobre o desejo
flutuei no aconchego
sensação clandestina de ser
a mulher que soubeste amar no leito
e comer num verso curto
mas, que não sossega com metidas breves
e em pétalas roxas nas coxas
suavizadas em azuis celeste
mais consumida quanto
mais se afasta dela-s.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

luz que entra pela janela
na hora dela
irradiar...

em seu dourado Piauí
um peixe um ipê

todo o improvável
amor fado

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

As cartas que não escrevo

são pequenas as entrelinhas do email
nelas não cabem sequer metade dos meus anseios

no papel meio amassado pelo suor das mãos e correios
preenchido linha por linha de letras tremidas
de lágrimassorrisosebeijos

essas cartas que não chegam
des-encontra a presença amiga
e saudades riscada pelos muitos desejos

sexta-feira, 28 de agosto de 2009


BOLERO

Qué vanidad imaginar
que puedo darte todo, el amor y la dicha,
itinerarios, música, juguetes.
Es cierto que es así:
todo lo mío te lo doy, es cierto,
pero todo lo mío no te basta
como a mí no me basta que me des
todo lo tuyo.

Por eso no seremos nunca
la pareja perfecta, la tarjeta postal,
si no somos capaces de aceptar
que sólo en la aritmética
el dos nace del uno más el uno.

Por ahí un papelito
que solamente dice:

Siempre fuiste mi espejo,
quiero decir que para verme tenía que mirarte.

Y este fragmento:

La lenta máquina del desamor
los engranajes del reflujo
los cuerpos que abandonan las almohadas
las sábanas los besos

y de pie ante el espejo interrogándose
cada uno a sí mismo
ya no mirándose entre ellos
ya no desnudos para el otro
ya no te amo,
mi amor.

Julio Cortazar