quinta-feira, 30 de abril de 2009

Insustentabilidade
transbordante no morro
o capital devorando o globo
a água arrastando fatos e foto
e o menino brinca com o barro molhado
na umidade da casa o nariz escorre
fora não há espaço pra pobre
crescer entre lixo e esgoto
água enchente dos olhos
sertão virando mar
arrepios no ar
é sinal...

terça-feira, 28 de abril de 2009

dona Teresa rezadeira da vila união apareceu-me

e com rama de arruda na mão

disse-me que quem ama sabe pedir perdão

quinta-feira, 23 de abril de 2009

paradoxo

quando o marginal me puxa
a lesma me comove
lótus rebenta no lodo

quarta-feira, 22 de abril de 2009

contração dos músculos
embalos na quintura do meio-dia, passarinhos
sábado à tarde inteiramente compartido
acomodação de qualquer gosto de sangue entre as salivas

adoço com café que gostamos como das cousas e-ternas do universo
um rosto familiar atrás da vitrine, esperando o fim de meu serão
pelas ruas avisto na esquina, o grito, indizível
abrigo em blue se-quer, feliz

abraço deliberadamente todo o jardim

ao partir, repartidos inunda linhas de rascunhos
devorando nossas cegueiras
falsifico uma fome
encontro orgasmos numa noite vazia sob fendas nos pés desatinadas...

a teus pés amarga vigília e sutileza leal de espinhos que contem a água

vago pela casa com uma velha estampa, tow in
e cuido de por pra dormir
faço um lambe-dor
e dou liberdade ao passante

segunda-feira, 13 de abril de 2009



Sentir a ausência dilacerando

Compleição do cotidiano afastando-se,

As gotas correm quentes na pele

Cortando a carne,

No rasgo de saudade,

Esse estrago anestesiando o peito,

Lateja em soluço não velado

Mais saudade perdida pela casa

De compartilhar anseios e defeitos,

Cama, café e chuveiro

Atordoa-me

E na madruga me assalta o desejo

Corro insone, sonâmbula, sonhante pra teus beijos

Pálido e abatido você não nega interesse,

Recrimina minha nudez na poesia,

Perto dela e longe de você,

Sou intensa e breve

Você quase mente e tenta esconder-se, um pouco,

Mas eu sinto...

Sufocados de se querer e de angústia

Te atraio e você me busca

Desliza a língua por meu corpo

Contorço-me e me mordo

Segura meus cabelos nas mãos,

Fixa meu rosto

Cálido beijo

O teu pulsar nas minhas veias

Consumimos o imaterial,

Os gastos e restos se misturam

Penetrações que nos funde em uma só criatura

Ofegante sou quase muda

E as letras me evaporam

Silenciada pelos teus lábios e sussurros

Bebo na tua boca gemidos,

Regogiza-me teu prazer indescritível,

A gente explode de tesão,

Em gozo infinito

Não há no mundo quem te faça sentir assim

A não ser eu,

Cheio de ternura meus olhos úmidos fitam os teus

Que me perguntam: o que foi

Enquanto seu braço me aninha no peito,

Aspirando teu cheiro

Ponho teu pijama

E tiro nosso ar mais uma vez...

quarta-feira, 8 de abril de 2009


Fico quieta.
Não escrevo mais. Estou desenhando numa vila que não me pertence.
Nao penso na partida. Meus garranchos são hoje e se acabaram.
"Como todo mundo, comecei a fotografar as pessoas à minha volta, nas cadeiras de varanda."
Perdi um trem. Não consigo contar a história completa. Você mandou perguntar detalhes (eu ainda acho que a pergunta era daquelas cansadas de fim de noite, era eu que estava longe) mas não falo, não porque a minha boca esteja dura. Nem a ironia nem o fogo cruzado.



Tenho medo de perder este silêncio.
Vamos sair? Vamos andar no jardim? Por que você me trouxe aqui para dentro deste quarto?
Quando você morrer os caderninhos vão todos para a vitrine da exposição póstuma. Relíquias.
Ele me diz com o ar um pouco mimado que a arte é aquilo que ajuda a escapar da inércia.
Outra vez os olhos.
Os dele produzem uma indiferença quando ele me conta o que é a arte.
Estou te dizendo isso há oito dias. Aprendo a focar em pleno parque. Imagino a onipotência dos fotógrafos escrutinando por trás do visor, invisíveis como Deus. Eu não sei focar ali no jardim, sobre a linha do seu rosto, mesmo que seja por displicência estudada, a mulher difícil que não se abandona para trás, para trás, palavras escapando, sem nada que volte e retoque e complete.
Explico mais ainda: falar não me tira da pauta; vou passar a desenhar; para sair da pauta.

Estou muito compenetrada no meu pânico.
Lá de dentro tomando medidas preventivas.
Minha filha, lê isso aqui quando você tiver perdido as esperanças como hoje. Você é meu único tesouro. Você morde e grita e não me deixa em paz mas você é meu único tesouro. Então escuta só; toma esse xarope, deita no meu colo, e descansa aqui; dorme que eu cuido de você e não me assusto; dorme, dorme.
Eu sou grande, fico acordada até mais tarde.


Ana Cristina César

sábado, 4 de abril de 2009

sou dada a absurdos

vejo almas

vultos pela casa

intensidade pedindo perdão

arrasto de um clarão

sou dada a absurdos

só sei me dar com amor

invada a doce tara

ou a decência de conveniências

não fecho os olhos

vejo um lago agora

blue e classicismo

extremo enigma no piano


Hero tocando guitarra