quarta-feira, 29 de julho de 2009

rodoviária

a vida embarcando

como chuva despencando

fina na noite frente à luz dum poste

sábado, 18 de julho de 2009

"E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também."

Caio Fernando Loureiro de Abreu (Santiago, 12 de setembro de 1948 — Porto Alegre, 25 de fevereiro de 1996) foi um jornalista e escritor brasileiro.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Oração do dia treze
que se possam unir as mãos
e nelas embalar mais que uma promessa
aconchego pelo dia que não houve um blue
e que cristalina pela sina se gaste e cresça na visão do jardim
que permita sem medo abraçar o desejo e o chão
depois dum chá de cidreira ou café as cinco sem assombração
e numa caminhada pela treze que benfica como uma peregrinação leve
dê a avistar a torre da catedral surgir atrás de nuvem em sinal(duma aparição da graça e/ou açoite!)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

no domingo à noite

a tua grande mão enchia-se de mim

apalpava a coluna percorrendo a curva

repousava a cabeça no teu peito entre silêncio

e nas pernas estendidas a minha se encaixava de lado

era um em dois sem nenhuma impressão de dor do que foi

nem mesmo o som que há pouco era pranto e riso vibrava

como que esquecidos e abençoados éramos dois em um

e a respiração lenta ofegava, parava ofegante...

ecoou como infinito